Sadi, Natuza, Lula, Flávio e entrevistas esvaziadas

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Sou espectador assíduo da GloboNews. Já faz tempo, é o jornalismo de televisão que mais me atrai, com o olhar de quem atuou na área durante 25 anos.

Na semana passada, dentro do Estúdio i, o canal fez uma série de entrevistas com os candidatos a presidente. Chamou os cinco com melhor pontuação nas pesquisas.

O presidente Lula, que abriria a série de entrevistas, avisou que não participaria. Seu principal oponente, Flávio Bolsonaro, que fecharia, fez a mesma coisa.

Para Andréia Sadi e Natuza Nery, escaladas para entrevistar os candidatos, restaram Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD).

Até aqui, a real disputa que está posta é entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro. Renan, Zema e Caiado não passam dos 5 pontos nas pesquisas.

Uma série de entrevistas sem Lula e Flávio Bolsonaro não tem a menor graça. A ausência deles esvaziou o projeto. Renan, Zema e Caiado foram meros coadjuvantes.

Resgato agora um texto que postei aqui durante o processo eleitoral de 2022:

Em 1982, a volta das eleições dos governadores foi abrilhantada pelos debates entre os candidatos. Melhor ainda em 1989, com o retorno das eleições diretas para presidente. Àquela época, tínhamos o entendimento de que, em nome do respeito à democracia, um candidato não podia faltar a um debate.

Em 1990, para citar um exemplo do qual fui testemunha, Wilson Braga, que disputava o governo da Paraíba, se comprometeu, por escrito, a participar do debate do primeiro turno na TV Cabo Branco. Como achava que estava com a eleição ganha, não participou. Com a eleição perdida, acabou indo ao debate do segundo turno. Foi triturado por Ronaldo Cunha Lima, que se elegeu governador.

Em 2010, disputando a reeleição, José Maranhão não quis debater no primeiro turno. Tinha certeza da vitória. A disputa, no entanto, foi para segundo turno, Maranhão entendeu que não podia fugir do debate, mas acabaria derrotado por Ricardo Coutinho.

É interessante observar como os debates foram deixando de ser um compromisso do candidato com a democracia e se transformaram numa questão de estratégia de campanha. Fui observador privilegiado posto que atuei nos bastidores deles durante muitos anos e testemunhei essa transformação. Ela é boa? Ela é ruim? Diria que é real.

Nesta segunda-feira, no G1, Renata Lo Prete deu início a uma série de entrevistas com os candidatos a presidente. O primeiro entrevistado foi Ciro Gomes. Lula e Bolsonaro foram convidados, mas, no prazo estabelecido pela produção, não confirmaram presença.

A ausência numa série de entrevistas sugere que os candidatos não devem participar de debates no primeiro turno? Não quero morder a língua, mas sugere, sim. Tanto para Lula quanto para Bolsonaro, a estratégia se sobrepõe à democracia. Nesse quesito, ficam parecidos. Um não pode falar mal do outro. Nem suas militâncias.

Volto a 2026. A ausência de Lula e Flávio Bolsonaro não apenas esvazia uma série de entrevistas promovida em um canal conhecido por priorizar o debate político.

A ausência de Lula e Flávio Bolsonaro pune o eleitor, despreza o papel fundamental exercido pela mídia e, por fim, se caracteriza como desserviço à democracia.