João Bosco e o gol anulado

Vi João Bosco, que completou 80 anos em 13 de julho, em dois momentos nos últimos dias. Na entrevista no Sem Censura e na entrevista no Estadão.

Na primeira, o artista numa conversa deliciosa conduzida por Cissa Guimarães. Na segunda, uma fala que o compositor poderia ter evitado.

Reconheçamos que João Bosco foi infeliz no que disse. Mas Gol Anulado não faz a defesa do cara que bateu na mulher quando ela comemorou o gol de Zico.

Não é João Bosco que está contando que bateu na mulher. Nem Aldir Blanc, autor da letra. É o eu lírico. A letra de Gol Anulado é na primeira pessoa.

A letra é uma crônica. Como tantas crônicas incríveis que, por toda a década de 1970, Aldir Blanc escreveu para João Bosco botar música.

Gol Anulado é uma fotografia. Fotografia de uma cena que pode ser real. Não defende a violência do homem contra a mulher nem sugere que ela seja praticada.

Gol Anulado foi gravada por João Bosco há 50 anos. Está no álbum Galos de Briga, de 1976. Depois, aparece em Luz das Estrelas, álbum póstumo de Elis Regina.

Galos de Briga tem Incompatibilidade de Gênios, O Ronco da Cuica, Transversal do Tempo e Rancho da Goiabada. Todas, mais lembradas do que Gol Anulado.

João Bosco e Aldir Blanc, essa grande dupla, têm um lugar importante na história da música popular brasileira. Têm também, junto com outros artistas, uma presença marcante nas lutas da sociedade civil contra a ditadura militar.

Torço, muito sinceramente, para que João Bosco não seja cancelado pelo que disse ao Estadão. Nem que seja defenestrado por quem sempre aplaudiu a sua música.

O destino do Brasil enquanto nação e a música popular brasileira são inseparáveis. Faz tempo que ouvi essa frase. E gosto imensamente dela. O repertório de João Bosco e Aldir Blanc faz parte do que há de melhor no nosso cancioneiro. E assim deve seguir.